Entrevista | Vicente Lôbo – “Sempre tive a convicção que um Engenheiro de Minas precisa ter foco em produção e resultado”


Secretário de Geologia, Mineração e Transformação Mineral do Ministério de Minas e Energia, Vicente Lôbo – crédito: divulgação

Em uma série exclusiva produzida pelo Portal da Mineração, o Secretário de Geologia, Mineração e Transformação Mineral do Ministério de Minas e Energia, Vicente Lôbo, contou um pouco de sua trajetória profissional e traçou um panorama do setor. Confira.

Portal da Mineração – Como foi sua trajetória profissional?

Vicente Lôbo – Me formei pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mas passei bastante tempo e, com muita honra, sou aluno honorário da Escola de Minas de Ouro Preto.

Comecei minha carreira na Paulo Abib Engenharia, uma empresa importante que teve uma grande influência na minha vida profissional. Era um local muito bacana, que conseguia agregar grandes nomes do setor. Lá éramos pioneiros na questão da tecnologia ambiental do País e no desenvolvimento de projetos minerários.

Fiquei um período em Belo Horizonte (MG) e depois me transferi para São Paulo (SP). Na época estávamos desenvolvendo muitos projetos, principalmente no setor de fertilizantes. Fomos fazer o start up de uma planta nova em Catalão (GO) e acabei sendo convidado para ser Engenheiro de Processos dessa planta. Me transferi de São Paulo (SP) para a Petrofert, um braço da Petrobrás no setor de fertilizantes. Fui como Engenheiro de Processos e acabei construindo uma carreira nessa empresa. Em seguida, fui promovido a Engenheiro de Produção e passei a atuar como Chefe de Beneficiamento Mineral da planta.

Quando passei por essa promoção, fiquei duas ou três noites sem dormir. Achava aquela planta imensa, infinita e absolutamente grandiosa para mim. Acho que a vida vai ser sempre assim: os primeiros desafios nos levam a uma insegurança primária e enxergamos o desafio muito grande. Mas, a medida que nos envolvemos e nos dedicamos, eles vão ficando cada vez menores.

Inesperadamente um dia fui convidado para assumir a gerência de manutenção da empresa. Naquele momento pensei: eu, que sempre enxerguei a polpa, agora vou ter que enxergar o tubo, a parte elétrica… Foi uma experiência maravilhosa e aumentou a minha amplitude profissional. Foi muito legal, principalmente por conta da interação com as pessoas e por dependermos da mão de obra direta. Além disso, passei a entender o barulho das máquinas – o que para um Engenheiro de Minas também é muito interessante. Criei uma responsabilidade na operação e revitalização das máquinas, a parte de custos passou a ter um valor muito importante, assim como a questão do almoxarifado, do gerenciamento, etc. Essa experiência me ajudou a agregar muito valor à minha formação.

Em seguida fui convidado para assumir uma posição de Gerente Geral Industrial na Bung Fertilizantes. Foi muito interessante, pois lá era um complexo com toda a parte de mineração – uma lavra representativa com uma mina em cava profunda, toda a parte de tratamento de minério e toda a linha de segmento. Tínhamos o calcário como um produto secundário, a parte de transformação química com plantas de ácido sulfúrico e fosfórico, plantas de fosfato bicálcico etc. Passei a ter uma experiência realmente singular, a possibilidade de viver uma planta química complexa e avançada.

Naquela época o modelo de gestão era muito menos dinâmico. Um diretor cuidava, por exemplo, da parte ambiental, de segurança, de custos, de almoxarifado… Não havia segmentação dos processos. Sempre tive a convicção que um Engenheiro de Minas precisa ter foco em produção e resultado. Não adianta termos a melhor peça do mundo e não entregarmos um resultado efetivo e concreto.

Fiquei 15 anos nessa companhia e depois de comprar tantos ativos a Bung definiu que estava na hora de se desfazer do setor de fertilizantes no Brasil. Tínhamos várias plantas pelo País e passamos por um processo de venda.

Fui para a Vale Fertilizantes e foi uma experiência extraordinária. Atuei como Diretor de Operações de Fosfatados da Vale. Hoje vejo que minha trajetória me deu uma visão muito ampla. Foram formações diferentes, assim como formas de atuação, alinhamentos, visões, missões, propósitos. Foi tudo muito heterogêneo e tive que aprender a viver com essa diversidade. Fiquei na Vale por seis anos e depois me aposentei.

Fui para casa pensando que o mais oportuno seria ler meus livros, ler poesia, relaxar, brincar com meus netos… Passei dez dias lá e vi que não tinha mais espaço depois de 35 anos na “lida”. Eu estava ficando muito chato!

Nesse momento percebi que teria que me redescobrir. Eu resolvi, por achar que a engenharia brasileira precisa passar pela inteligência do processo e pelo desenvolvimento da tecnologia, ambiciosamente, montar a Lôbo Engenharia, uma empresa de consultoria. Consegui, como um “guardador de rebanhos”, unir as pessoas que mais me influenciaram e que eram referência na minha área e as convidei para trabalhar comigo. Era um trabalho “informal” e não tínhamos muitas pretensões. Sabíamos que era um mercado difícil para começar uma empresa de consultoria. Mas foi maravilhoso! Juntamos muitos amigos e montamos um grande time! Quando eu entrava no site da minha empresa e via tantas pessoas competentes juntas só conseguia pensar: estou muito bem cercado de amigos!

Tínhamos uma grande diversidade: pessoas formadas em planejamento, em tratamento de minério, engenharia de processos, mina subterrânea, na parte ambiental, na área de segurança. Acho que o que facilitava nós éramos vários “trainees com mais de 60 anos” que já erramos tanto na vida que a chance de errarmos de novo era muito pequena.

Aí aconteceu o que eu nunca imaginei! Nunca tive nenhuma proximidade e nem me passou pela cabeça em nenhum momento da minha trajetória a possibilidade de trabalhar com política pública. Não achava e nem acho que tenho habilidade fundamental para exercer um cargo público e criar as diretrizes para a política mineral do País. Nunca me senti preparado para isso!

Estava no Centro de Tecnologia Mineral (CETEM) no Rio de Janeiro (RJ) realizando um teste de flotação e recebi a ligação de um cliente que havia inadvertidamente sugerido a um jovem que assumiu a posição de Ministro de Minas e Energia (Fernando Coelho Filho) meu nome para ocupar a Secretaria de Geologia, Mineração e Transformação Mineral. Resolvi vir a Brasília (DF) para dizer ao Ministro que, embora muito honrado e feliz com o convite, não poderia aceitar. Achava a função muito interessante e, principalmente, via como uma oportunidade de retribuir ao meu País tudo o que recebi. Sempre estudei em escola pública e via isso como uma oportunidade de tentar mudar o setor e de pensar no desenvolvimento da mineração… Fui conversar com o Ministro decidido a agradecer o convite e ele acabou me convencendo a ficar. Resolvi aceitar esse desafio diante de um espectro que era totalmente desconhecido para mim.

Passei um mês trabalhando antes de ser nomeado, focado em entender os gargalos do setor, os desafios da função e conhecer a Secretaria. Mais uma vez fui atrás dos meus amigos e acabei encontrando muita gente no setor que me ajudou muito. Visitei todas as entidades que representam o setor mineral, algumas universidades e conversei com todos os presidentes de empresas que atuavam no setor para entender como podíamos mudar o período de baixa que a mineração estava vivendo.

Associada às depressões da commodities minerais, que é um problema global, vivíamos um momento complicado pois havia uma expectativa de se trazer de volta uma segurança política e regulatória. Era um ambiente complexo com um governo que entrou em uma situação difícil, um alto índice de desemprego, um setor sem perspectiva de crescimento… E eu, um “analfabeto” em políticas públicas, deveria cuidar da parte mineral. Acredito que precisamos sempre ter sempre muito amor e dedicação pelo que fazemos e que um Engenheiro de Minas tem, em sua vocação, o poder de transformar as coisas.

Entendi que dentro do ambiente político e econômico do Brasil precisávamos estruturar algo realmente concreto para ter a capacidade de “vender” nosso setor internacionalmente. Precisávamos acabar com as indefinições que vivemos nos últimos 50 anos. É muito importante entender que temos um papel fundamental para o desenvolvimento social e econômico do País e que “desaprendemos a caminhar para frente”. Tínhamos um código de 50 anos atrás, uma Agência que nunca saiu do papel… Muitos discutiam a mineração brasileira mas ninguém chegava a um resultado concreto. E na Engenharia de Minas temos essa cabeça: temos que ter começo, meio e fim. O elemento final é o resultado!

Nesse sentido construímos um programa muito ambicioso para um governo de dois anos (Programa de Revitalização da Indústria Mineral Brasileira). Apresentamos para os CEOs e, embora tenha recebido muito apoio, acho que eles não acreditavam que a gente conseguiria levar adiante. Conseguimos levar a frente, com toda a convicção do que o que faz a diferença são as pessoas, a dedicação, o comprometimento, a capacidade de liderança.

Tenho certeza que quando temos um propósito firme e a convicção de onde queremos chegar, alcançamos. Acredito que temos que ter humildade: independente da posição que ocupamos somos apenas um agente.

Estou há dois anos como Secretário de Geologia, Mineração e Transformação Mineral e estou fechando um ciclo. Estou ansioso para saber o que vem pela frente e espero situações desafiadoras! A única convicção que tenho é que gosto tanto de mineração, geologia e da engenharia de minas que sei que não deixarei de trabalhar. Espero que Deus me dê mais um desafio pela frente depois do meu período na Secretaria.

 

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