Mineradoras avançam em técnicas alternativas às barragens de rejeitos

Paulo Cesar Abrão, Sócio-Diretor da Geoconsultoria – crédito: Glenio Campregher

Especialistas em mineração apresentaram nesta manhã (3.8) estudos e projetos, que estão em desenvolvimento, para tratamento e a disposição de rejeitos minerais. Esses subprodutos são armazenados porque, geralmente, podem vir a ser reprocessados em etapas posteriores da atividade industrial. São técnicas como as que minimizam o uso de água (filtragem por exemplo); a transformação do material em pasta; o armazenamento em cavas, entre outras.

Esses modelos de tratamento e disposição podem vir a ser alternativas e ou complementos ao papel desempenhado pelas barragens que utilizam água. Os especialistas defenderam que as barragens não podem ser demonizadas ou proibidas no Brasil, ainda mais que não é viável simplesmente substituí-las de uma hora para outra; são, por vezes, a solução ideal para a viabilidade econômica de uma operação mineral, seja no País ou em outra localidade pelo mundo.

“Os países desenvolvidos e nossos concorrentes em mineração, como Canadá, Austrália e Chile, utilizam barragens para dispor os rejeitos minerais”, disse Paulo César Abrão, sócio-diretor da empresa Geoconsultoria. Segundo ele, no Brasil não há proibição para implantar barragens de rejeitos minerais, mas há enorme dificuldade para obter licenciamento para novas unidades.

Após o acidente na barragem de Fundão, em Mariana (MG), o debate sobre essas estruturas tem sido marcado pela falta de reflexão técnica mais aprofundada, o que é um risco para a indústria da mineração, avaliou. Abrão considerou que essa prática força as mineradoras a adotarem tecnologias alternativas, sobre as quais ainda não têm pleno domínio e, por isso, demandam anos de estudos e testes antes de efetiva aplicação nas operações das minas.

Abrão participou da segunda parte do Workshop “Gestão de barragens de rejeitos de mineração”, no último dia do Congresso de Minas a Céu Aberto e Minas Subterrâneas (CBMINA), na UFMG, em Belo Horizonte (MG). O Congresso é realizado pelo Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM) em parceria com a UFMG.

Chile teve acidentes graves em barragens e continua a permitir essas estruturas

No Chile, relatou Abrão, onde já houve acidentes em barragens com consequências graves, houve tão somente a proibição de se construir um tipo de barragem – chamada alteamento a montante – e não simplesmente dificultar a concessão de licenciamento a novas estruturas. Ele lembrou que as barragens espalhadas pelo Brasil não são apenas relacionadas à mineração. Há as que comportam apenas água, por exemplo, e, para estas, parece não haver restrição por parte da opinião pública, embora apresentem ocupações humanas bem próximas. Citou os casos das represas Guarapiranga e Billings, ambas em São Paulo, e Lake Mathews, em Los Angeles (EUA).

Os acidentes em barragens de rejeitos minerais, embora devam ser lamentados, servem de aprendizado para que o sistema seja aperfeiçoado com o passar dos anos. Ele comparou a situação com os desastres aéreos; disse que a aviação não é proibida por causa dos acidentes, mas tomam-se providências para que seja cada vez mais segura para os usuários e profissionais daquele setor.

Até mesmo técnicas como o empilhamento a seco de rejeitos pode apresentar riscos se a disposição não for bem planejada e executada. Houve acidentes desse tipo na Bélgica e no Reino Unido, exemplificou.

Romero César Gomes, Professor da NUGEO / UFOP – crédito: Glenio Campregher

Subproduto do processo industrial da mineração

O professor Romero César Gomes, da Universidade Federal de Ouro Preto, defendeu que o termo “rejeito” não deveria ser utilizado pelo setor mineral, afinal, o material se constitui em um “subproduto do processo industrial”.

Ele afirmou que as empresas estão em busca “de novas tecnologias” para dispor o subproduto, porém, será preciso conviver com as barragens hidráulicas por muitos anos ainda. Ele defendeu que as empresas que utilizam as barragens podem realizar estudos técnicos com a finalidade de extrair o maior volume possível de água dessas estruturas, combinados com o uso de alternativas para dispor os subprodutos. Esse processo de desaguamento, no entanto, deve ser muito bem avaliado tecnicamente.

Gomes citou exemplos de técnicas que podem ser adotadas, tais como o tratamento dos subprodutos por adensamento eletrocinético; a transformação em pasta; armazenamento em tubos geotêxteis (como no Canadá); disposição de rejeitos secos em baias de ressecamento; co-disposição e empilhamento drenado, como faz a companhia ArcellorMital que, segundo ele, não pretende mais construir barragens hidráulicas em suas operações minerais.

Marco Tulio Santiago Ferreira, Gerente de Desenvolvimento, Processo e Tratamento Mineral da Vale – crédito: Glenio Campregher

Marco Tulio Santiago Ferreira, gerente de Desenvolvimento, Processo e Tratamento Mineal, da Vale, explicou à plateia do CBMINA os estudos que a companhia realiza desde 2011 para cumprir metas ousadas de olho em reduzir o total de rejeitos e o uso de água. Estão sendo avaliados métodos de disposição em cavas, empilhamento drenado e pilha de rejeitos. Ferreira lembrou que existem diversas tecnologias, mas cada tipo de operação mineral, de minério, de rejeito, de condições geotécnicas influencia na decisão adequada sobre como dispor os subprodutos industriais da mineração.

O workshop contou também com a palestra de José Pedro da Silva, engenheiro especialista de Processos, da Samarco Mineração. Ele apresentou os avanços da companhia nas tecnologias alternativas à utilização de barragens hidráulicas: desaguamento de rejeito arenoso (disposto em pilhas), com uso de filtro com disco a vácuo revestido de tecido filtrante; adensamento da lama (rejeito fino) e disposição em cava. O encontro foi mediado por Paulo Ricardo Behres da Franca, sócio-diretor da F&Z Consultoria e Projetos.

José Pedro da Silva, Engenheiro Especialista de Processo da Samarco Mineração – crédito: Glenio Campregher
Paulo Ricardo Behrens da Franca, Sócio Diretor da F&Z Consultoria e Projetos – crédito: Glenio Campregher
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