Investigação e análise de acidente do trabalho são temas de curso promovido pelo IBRAM


1º módulo do Curso de Investigação e Análise de Acidente do Trabalho – crédito: divulgação

Uma das principais preocupações do setor de mineração é a prevenção de acidentes. As análises modernas indicam que, para superar o círculo vicioso de acidentes, é necessário buscar as razões básicas dos acontecimentos e delas tirar os ensinamentos para garantir a melhoria dos processos produtivos e melhorar, principalmente, as condições que conduzem ao bem-estar e à saúde  dos trabalhadores.

O Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM), com o programa Especial de Segurança e Saúde Ocupacional na Mineração (MINERAÇÃO), organiza diversos cursos durante todo o ano para orientar na busca de soluções que levem melhorias para o setor de SST nas mineradoras.  No início de julho, representantes de diversas empresas do setor mineral estiveram reunidos em Belo Horizonte (MG) para participar do 1º módulo do Curso de Investigação e Análise de Acidente do Trabalho, realizado em parceria com a FUNDACENTRO-MG.

O curso teve  o objetivo de contribuir para a capacitação dos participantes com relação às concepções contemporâneas de análises de acidentes,  promovendo uma reflexão sobre as abordagens atuais de gestão de segurança e confiabilidade humana.

Segundo Eugênio Diniz, pesquisador da Fundacentro e palestrante do evento, cursos como esse são muito importantes para auxiliar na prevenção de acidentes no setor, porém, são apenas os meios para colocar os gestores e tomadores de decisão em contato com tecnologias contemporâneas avançadas de gestão de risco. “A prevenção mais eficaz poderá ter início se as empresas abrirem espaço para discutir de forma aberta essa concepção em todos os níveis da organização, buscar promover um equilíbrio entre a Segurança Normatizada e a Segurança em Ação e aproveitar do potencial que esta última possui para alçar a um estágio superior a segurança e a eficiência do processo produtivo”, analisa.

Segundo ele, mesmo com investimentos expressivos em segurança nas empresas, muitas mantêm a curva de acidentes e incidentes inalterada, ano após ano. “No curso foi possível abordar temas que indicam como proceder para ajudar a defletir essa curva e ainda identificar e diagnosticar sinais precursores que possam gerar acidentes graves e ampliados. Além disso, a concepção de gestão de risco com a qual trabalhamos pode, uma vez adotada nas empresas, auxiliar a dirimir conflitos entre setores, solucionar os problemas em suas origens sistêmicas, ao identificar e tratar a interação dos fatores de risco e não apenas as causas e, consequentemente, melhorar a confiabilidade do sistema”, explica.

As inscrições para o curso de Investigação e Análise de Acidente do Trabalho estão encerradas e o segundo módulo ocorrerá em agosto. Mais informações em http://programamineracao.org.br/

Confira a seguir entrevista com o pesquisador da Fundacentro, Eugêncio Diniz, sobre o tema Investigação e Análise de Acidente do Trabalho.

Portal da Mineração – As análises realizadas pelas diversas empresas do setor já identificaram quais são as causas mais rotineiras de acidentes de trabalho? Quais seriam e como melhorar a produção e a segurança do trabalhador?

Eugêncio Diniz – Nos casos de acidentes, normalmente as empresas têm identificado as causas desses eventos, ou seja, a falha do trabalhador no cumprimento das normas de segurança, falha de algum dispositivo técnico ou ainda, a inexistência ou deficiência de algum procedimento normativo. De um modo geral, esses achados podem ser resumidos em duas categorias: erro humano (os culpados são identificados) e falha técnica.

Entretanto, essas causas não elucidam de forma suficiente e necessária a interação dos fatores, tanto no momento da ação quanto aqueles anteriores à ação, e que contribuíram para que ocorresse o erro humano ou a falha técnica. Para fazer avançar a segurança e a confiabilidade do sistema técnico o erro humano e a falha técnica devem ser considerados como variáveis de análise sistêmica e não explicativa dos acidentes e incidentes. Por exemplo: no caso do trabalhador que falhou durante uma operação é preciso explorar o que ele percebia e o que não percebia no curso da ação. O que ele sabia e o que ele não sabia. Quais eram as suas intenções com aquela ação. O que lhe impediu de manter o sistema sob controle, como das outras vezes.

Da mesma forma, as respostas a essas questões também precisam ser compreendidas, buscando as suas origens. Em cada passo, a finalidade não é identificar culpados, mas falhas e pontos fracos que precisam ser tratados e pontos fortes que precisam ser compartilhados e ampliados.

Portal da Mineração – Este debate deve ser um esforço continuado? Como identificar a melhoria dos comportamentos de trabalhadores e empresas na prevenção dos acidentes?

Eugêncio Diniz – O esforço continuado que se faz necessário na atualidade é buscar promover ações para reconectar a gestão à produção. Os problemas que ocorrem na linha de frente não são mais reconhecidos pelos gestores e esses adotam medidas e modelos de gestão que têm impactado sobremaneira a produção e a segurança. Uma forma de realizar isso e melhorar o comportamento dos trabalhadores seria a transformação de muitas reuniões formais já existentes, mas pouco produtivas, em “Espaços de Debate sobre o Trabalho” , onde se estimule a controvérsia, prevaleça a hierarquia de saberes, onde as pessoas sejam protegidas por expor e se expor ao relatar os problemas e, sobretudo, os conflitos, as contradições e as injunções paradoxais que vulnerabilizam o sistema e a segurança.

Portal da Mineração – Quais são os principais desafios para se avançar na segurança do trabalhador quando o assunto é acidente?

Eugêncio Diniz – O maior desafio é conseguir superar o paradigma do erro humano e da culpa.  As pessoas podem falhar em algum momento e perder o controle durante a tentativa de recuperar ou manter o sistema sob controle. Então, para fortalecer o que se denomina Segurança Normatizada (normas, treinamentos, regras, dispositivos de proteção etc) é fundamental investir não mais em novas formas de controles e punições descontextualizadas, mas auxiliar o trabalhador a melhorar o seu desempenho, que se dá  por meio  da Segurança em Ação (competência para antecipar, identificar e corrigir perturbações, isoladamente e/ou coletivamente).

 

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