O que as vezes a gente não vê, a crise mostra

Confira a íntegra do discurso do Presidente da Anglo American, Ruben Fernandes, durante premiação “Empresas do Ano do Setor Mineral” ocorrido ontem (8.5) em São Paulo (SP).

Há 45 anos, a Anglo desembarcava no Brasil. PIB de 14%, auge do regime militar, fim do milagre econômico brasileiro e o mundo às vésperas da crise mundial do petróleo. Passando pelas décadas perdidas, enfrentando momentos difíceis, fomos consolidando nossos valores, nossa gente, nossos negócios, nosso papel na sociedade, na economia brasileira. Níquel, ouro, nióbio, fosfatos, zinco, minério de ferro. Parte de uma província mineral vasta e rica desta nação que temos a honra e orgulho de ser, de certa forma, um dos protagonistas da indústria. Ao longo do tempo, crises econômicas, políticas, hiperinflação, guerras, países emergentes, tigres asiáticos. A Anglo sempre enfrentando seus desafios, desenvolvendo sua gente, se reinventando, sempre nas fundações sólidas de suas crenças e valores, base da família Openheimer, seus fundadores.

Projeto Minas-Rio, um grande desafio, uma grande complexidade, um grande aprendizado. Primeiro embarque em 2014. A partir de 2016, uma grande transformação cultural. Era necessário um novo modelo, novas atitudes. O ambiente de negócio mais ambíguo, mais vulnerável. A credibilidade da mineração sendo questionada. O licenciamento se transformou em crise. Minério se exaurindo, risco de parada de produção. Vimos então os primeiros frutos. O que, às vezes, a gente não vê, a crise mostra. Trabalho incansável das equipes. Compensação florestal, condicionantes, cavidades, trogóblios comitês de convivência, teores baixos, perdas metalúrgicas. O time se reinventou. O time se integrou. Discussões acaloradas, mas baseadas em um objetivo comum, Step 3, LP/LI. Negociações infindáveis, desgastantes com órgãos públicos. Fim de 2017, tudo orquestrado, prontos para a votação. Seria nosso presente de Natal. Estávamos confiantes. Em uma reunião, no MPMG, a decisão difícil, solitária do CEO. Era preciso adiar novamente. Era preciso mostrar nossa abertura, nosso comprometimento ao diálogo. Decepção, desconfiança da equipe. Compreensão, resiliência. Era o time se mostrando forte mesmo na adversidade. O que, às vezes, a gente não vê, a crise mostra. Mostra, a cultura, a inspiração, a transpiração, o coração. Mostra que estamos no caminho.

Chegara 2018, enfim a votação. Enfim, as licenças. Janeiro, dia 26, afinal era sexta-feira. Comemoramos, como adolescentes, como crianças. Teve batuque, fantasia, selfie, teve até cerveja. Merecíamos, estávamos exauridos, mas unidos, cada vez mais. Lindo ver o engajamento de todos, das esposas, dos parceiros, das crianças, das comunidades. Era a Anglo American começando a escrever uma nova história. O que, às vezes, a gente não vê, a crise mostra. A alegria durou pouco. Tal e qual o Carnaval, apenas alguns dias. Em março, o susto, o inesperado. O primeiro vazamento, o segundo. Como um capricho do universo, estávamos em crise mais uma vez. Estaríamos sendo testados novamente, como líderes, como equipe? Era hora de mostrar nossa força, nossa união. Tema do encontro de líderes que fizéramos em fevereiro. Não era mais treinamento, era vida real, era para valer. E, mais uma vez, o que, às vezes, a gente não vê, a crise mostra. Mostra responsabilidade, mostra comprometimento, mostra competência, mostra a cara. Dias e dias ligados 24 horas, equipe no campo, equipe no escritório. Sem poupar recursos, sem poupar suor, sem poupar coração. Coletiva de imprensa, TV, rádio, jornais, Gabeira, prefeitos, Ministério Público, Ibama, Sindicato, todos atrás de nós, alguns contra nós, mas nossa consciência a nosso favor, com a certeza de fazer o que é certo. Cenas inesquecíveis. Gente às 3 horas da manhã distribuindo água mineral, comprando tubulações para captação no ribeirão, indo de casa em casa, técnicos em campo, todos juntos, um só time. Antes da coletiva de imprensa, orações, terços, energias positivas. Emoção na percepção destas cenas sutis. Após o ataque de microfones e câmeras, a constatação do trabalho em equipe, da postura correta. Por um lado, fui desconvidado sumariamente para palestrar no evento sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, da Rede Brasil para o Pacto Global. Barrado no baile, literalmente, completa ausência de uma conversa respeitosa. Por outro, uma postura íntegra, honrada, emocionante, do Sérgio e sua equipe, que jamais hesitaram em nos tirar este prêmio, que mostrou sua confiança, seu respeito à Anglo American.  O que, às vezes, a gente não vê, a crise mostra.

Era então momento de replanejar, de repensar o ano que começara tão bem. O esforço conjunto e contínuo tem sido de ir além do que a legislação exige, além do que é esperado, além das melhores práticas. Se a obrigação é entregarmos o ribeirão plenamente recuperado, vamos além. Vamos entregar um robusto plano de recuperação de áreas degradadas, que resulte na manutenção de áreas verdes importantes ao município de Santo Antônio do Grama. Se a lei estabelece as condições mínimas aos empregados que terão seus contratos de trabalho suspensos pelos próximos meses, vamos além. Vamos garantir que não haja perda salarial, nem de benefícios. Vamos garantir que não haja demissões. Vamos garantir que o período seja dedicado a uma série de ações estruturadas voltadas para a saúde, para as relações, para o esporte, para a arte e para a qualificação dos empregados e suas famílias. Vamos atravessar esse momento unidos, com o vínculo ainda mais forte. Se o requisito era restabelecer o abastecimento de água no município, já fomos além. Construímos uma adutora permanente em tempo recorde. Vamos realizar um investimento social que vá ao encontro das demandas da população local, vamos resolver os transtornos que causamos deixando um legado que impacte positivamente a vida das pessoas. Se o esperado é que enviemos nossas informações aos moradores, à imprensa, às autoridades, aos empreendedores locais e parceiros, nós vamos além. Cumprimos uma extensa agenda que nos coloque face a face, olho no olho com cada pessoa, dialogando de forma transparente e respeitosa com todos aqueles, que direta ou indiretamente, estão envolvidos em nossas atividades. O que, às vezes, a gente não vê, a crise mostra.

É essa disposição para fazer o que tem que ser feito, colocando a preservação da vida como premissa de todas as decisões que têm tornado possível mantermos relações de confiança num contexto incerto e difícil.  Mais do que isso, são essas relações de confiança que nos vinculam, que nos fortalecem, que nos encorajam a seguir adiante, a despeito de qualquer dificuldade. Foi assim que a Anglo American completou 100 anos no mundo e 45 anos no Brasil, e é assim que pretendemos continuar escrevendo nossa história.

Portanto, especialmente hoje, diante do reconhecimento que este prêmio nos traz, queremos reafirmar nosso trabalho obstinado para sanar os problemas, para fortalecer nossa trajetória e para contribuir com os aprendizados necessários a uma mineração responsável. Estou certo de que só seremos capazes disso se mantivermos a proximidade e a transparência como aliadas de nossas relações. Precisamos nos reinventar, inovar, aprender ainda mais em diálogo com a sociedade, se quisermos contribuir para as transformações necessárias a um mundo mais justo e sustentável. Este é o principal compromisso que devemos assumir, enquanto sujeitos do nosso tempo e enquanto profissionais responsáveis e conscientes da importância da mineração na vida das pessoas.

E, como no filme, resta dizer, o que fazemos nesta vida, ecoa na eternidade. E como na vida, resta de fato afirmar, o que, às vezes, a gente não vê, a crise mostra, ensina, motiva e transforma. Paz e bem a todos.

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